Em um ato que continha muito mais desespero que sensatez, como numa despedida inevitável que chegara sem avisar, apesar dos sinais nítidos emitidos nos últimos tempos que ignorei ao invés de captar, me arrumei e saí, rumei pela Av. General San Martin em direção a Ipanema. Fui em busca de um sopro de vida. Era como se andar me desse a certeza de que continuaria vivo. Cada passo como lenha atirada numa fornalha que ao queimar manteria acesa a chama do meu coração.
Como um fantoche guiado, conduzido por fios presos numa mão suspensa acima de mim, fui puxado ao local onde já fui Rei. O lugar, onde nasceu “o maior sonho da minha vida”. Quando vi a sombra fresca da rua Paul Redfern meus olhos se encheram de lágrimas, que o vento forte e frio tratou logo de conter, secando-as. Eu voltava ao local onde até dez anos atrás era rotina. De tanto ir ali, era quase o dono, conhecia tudo. E por que parei? Bateu um arrependimento...
Eu queria me livrar do estado em que o meu corpo se encontrava, a cura parecia inalcançável. Se a qualquer momento eu perdesse as forças e tombasse alguém haveria de me ajudar, não tinha muito o que fazer, já era tarde demais.
Eu fui revendo “meus cenários”, cada centímetro do chão que um dia foi meu, as árvores frondosas cujas raízes as entrelaçam e as fazem mais fortes, o céu azul sem nuvens, o vento frio e o sol. Minha vida começou ali, num pequeno quarto improvisado, e se tudo acaba onde começou...
Enquanto era jogado de um lado para outro naquele oceano de recordações encontrava o auge da minha vida, meus dias “londrinos”, meus dias nublados, tudo o que amei e que hoje não existe mais. Pessoas que amei com todas as forças e que saíram da minha vida sem dizer um “tchau”, como Mariana – aquela que foi a mais pura de todas as minhas musas - como os meus passarinhos, as partidas de futebol das tardes de sábado e domingo...
Eu prometi muita coisa a mim mesmo naqueles 52 minutos de caminhada. Prometi mudar. Prometi voltar ali mais vezes. Vi nítido o hiato entre a glória absoluta do passado, a felicidade extrema, e o vazio de dor que aquela tarde encerra. Se eu escapasse, se eu tivesse uma segunda chance, se eu pudesse começar de novo...
Prometi fazer diferente. Abracei o simples, como assistir televisão numa tarde de quinta-feira. Eu só pedia uma chance, uminha, para nunca mais errar e começar a fazer tudo diferente. Cai a noite e tudo aparentemente bem. Bem-estar proporcionado por um comprimido de diclofenaco de potássio. Após os efeitos, o medo, a realidade, o fim iminente. Como aceitar o fim? Uma força maior contra a qual quase nada pode-se fazer.
Em busca de ajuda passo em frente ao colégio onde fui feliz do primeiro ao último dia. Tudo escuro, o frio, o medo...fui encarar a realidade.
A demora, a agonia, as lembranças voltam, começo a lembrar dos meus anos de glória, o auge da minha vida, meus sonhos. Bateu o pânico, “será que estou vendo aquele filme da nossa vida que dizem que as pessoas vêem quando estão a um passo da morte?”
Na madrugada fria, a volta para casa, o susto passou. Nasci de novo. Nasceu um novo homem. Com um pé no melhor do passado, onde estão minhas raízes que vão me fortalecer como as frondosas árvores da Avenida Prudente de Morais, cujas raízes crescem envolvendo a própria árvore tornando-a mais forte. Mas, os meus olhos miram para um futuro completamente deferente de tudo o que fiz recentemente.